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Deus
joga dados
Ao
completar cem anos, a teoria quântica se sustenta, contrariando
Einstein.
Alessandro Greco, Gazeta Mercantil
Nos séculos
XVIII e XIX a física clássica, estabelecida pelo inglês
Isaac Newton (1642-1727), parecia prover uma descrição acurada
do movimento dos corpos, como, por exemplo, o movimento dos planetas.
Os cientistas acreditavam ter entendido os princípios fundamentais
da natureza. Os átomos eram seus blocos construtores e as pessoas
acreditavam nas leis do movimento postuladas por Newton.
Tudo parecia levar
a física para um novo século sem grandes emoções,
com poucos problemas novos a serem resolvidos. Estudar a física
nessa época era considerado uma perda de tempo, mas no final do
século XIX, início do século XX, algumas experiências
começaram a levantar dúvidas sobre a capacidade da ciência
clássica de entender todos os problemas do mundo físico,
em especial os do mundo microscópico.
Um dos problemas que
atormentavam os físicos era a existência de duas teorias
para a luz. A teoria corpuscular explicava a luz como um feixe de partículas
e a teoria ondulatória entendia a luz como ondas eletromagnéticas.
A dúvida começou a ser resolvida em 14 de dezembro de 1900,
há cem anos portanto, quando o físico alemão Max
Planck (1858-1947) publicou um artigo que gerou uma revolução
similar à ocorrida na época da publicação
das leis do movimento de Newton, no livro "Principia". Em poucas
palavras, Planck sugeriu que o calor absorvido ou emitido por qualquer
objeto é transmitido em pequenos pacotes discretos de energia,
os quanta (plural da palavra latina quantum, que significa quanto). Estava
fundada a teoria quântica. Apesar de ser a teoria mais bem-sucedida
da história da física, não foi entendida satisfatoriamente
por ninguém. Nem por seus fundadores. Um deles o Físico
dinamarquês Niels Bohr (1885-1962), disse certa vez que, se alguém
dizia entender a teoria quântica, era porque com certeza não
tinha compreendido.
Passaram-se cem anos
e a situação continua a mesma. Muito se avançou na
teoria, mais entendê-la ainda é um exercício intelectual
sem solução. As características contra-intuitivas
da teoria quântica fizeram vítimas também entre seus
fundadores, mais especificamente o físico alemão Albert
Einstein (1879-1955), que a rejeitou de forma contundente. Einstein havia
sido uma das primeiras pessoas a acreditar na teoria de Planck e propusera,
em 1905, a existência de uma nova partícula elementar, o
fóton, pela qual a luz se propagaria em pacotes. (Foi esta descoberta
que deu a Einstein o Prêmio Nobel de Física de 1921, não
seus trabalhos mais conhecidos, a teoria da relatividade especial e a
geral.) Quando a teoria quântica mostrou que tinha vindo para ficar,
Einstein expressou seu descontentamento numa conhecida conversa com físico
americano John Archibald Wheeler. O cenário foi a casa de Einstein
na cidade de Princeton, Nova Jersey, Estados Unidos.
Wheeler perguntou a Einstein: "O senhor acredita na teoria quântica?"
A resposta: "Deus não joga dados."
Einstein nunca conseguiu
aceitar o fato de a teoria quântica ser probabilística e
não determinista como a física de Isaac Newton. Na teoria
quântica existe, por exemplo, a probabilidade de um elétron
estar em uma certa posição e com uma certa velocidade, nuca
a certeza disso.
Pior: é impossível
determinar a posição e a velocidade de uma partícula
ao mesmo tempo. È este o chamado princípio da incerteza
postulado em 1927 pelo físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976).
Tal princípio teve profundas implicações em nossa
percepção da vida e ainda hoje, quase 75 anos depois de
sua formulação, não foi totalmente digerido, dando
lugar a várias interpretações errôneas- geralmente
vindas de fora da física. O tamanho da mudança pode ser
medido pelos fatos de não podermos, após a mecânica
quântica, medir com precisão o estado atual do nosso universo,
nem fazer uma previsão precisa dos acontecimentos futuros.
Já no ano anterior
ao princípio da incerteza, o físico austríaco Erwin
Schrödinger (1887-1961) propôs sua equação de
movimento para o mundo das partículas. Nela, o resultado para uma
certa situação não era único, como no caso
das equações de Isaac Newton, mas uma série de alternativas
possíveis, com diferentes graus de probabilidade de acontecer.
Estava decretado o fim das certezas.
No final da década
de 20, nenhuma deficiência havia sido achada na mecânica quântica
e ela havia sido usada com sucesso na resolução dos problemas
que atormentavam os físicos da época. Ela gradativamente
os levou a entender a estrutura da matéria e proveu a base teórica
para o entendimento da estrutura do átomo, que havia sido postulada
em 1911 pelo físico inglês Ernest Rutherford (1871-1937),
com seu modelo do núcleo atômico com carga positiva (prótons),
circulando por uma nuvem de partículas negativamente carregadas
(elétrons), como os planetas girando em volta do Sol, teoria que
foi aperfeiçoada por Niels Bohr em 1913.
Bohr propôs
que os elétrons não orbitavam livremente em torno do núcleo,
mas em distâncias determinadas. A idéia vinha da necessidade
de achar uma solução para um problema clássico: a
previsão das leis da mecânica clássica e da eletricidade
de que os elétrons perderiam sua energia para dentro do núcleo
do átomo. A solução de Bohr era criticada por parecer
arbitrária. Além disso, sua expressão matemática
era complicada para átomos com estruturas mais complexas que a
do hidrogênio, o mais simples de todos. A resposta veio do físico
francês Louis de Broglie (1892-1987). Ele propôs, em 1924,
que bastava entender o elétron girando em torno do núcleo
como uma onda. Afinal, se a luz podia se comportar como partícula
ou onda, por que o elétron não poderia? Mas Einstein não
havia dito que a luz se propagava em pequenos pacotes de energia? Sim,
mas então a luz é partícula ou onda? Bem...as duas!
A luz é composta
de ondas, mas a teoria quântica afirma que, em alguns aspectos,
ela se comporta como se fosse composta de partículas e só
pode ser emitida ou absorvida em pacotes, ou quanta. Ou seja, segundo
a mecânica quântica, para alguns fins é útil
pensar nas partículas como ondas, ou vice-versa. Bem vindo ao estranho
mundo quântico.
Na tentativa de criá-la,
os físicos se depararam na década de 70 com a teoria das
cordas. Nela, as partículas que conhecemos são, na verdade,
pequenas cordas vistas de longe. Cada uma das partículas seria
feitas de formas de vibração diferentes dessas cordas. É
como se fosse o elemento básico da natureza e não a partícula
e o modelo standart fosse um tipo de aproximação de uma
teoria mais profunda, a teoria das cordas, hoje chamada, após algumas
modificações, de teoria das supercordas.
Mesmo se for descoberta
uma teoria quântica da gravitação, é que uma
teoria da relatividade geral em sua forma quântica, resta o grande
desafio: uni-la ao modelo standart, criando uma teoria unificada das partículas
e de suas interações . Para quê? Para chegar a uma
teoria que expresse todas as leis da natureza, ou "para entender
a mente de Deus", nas palavras de Albert Einstein. A dificuldade
toda está em unir as leis que governam o muito pequeno (modelo
standart) àquelas que governam o muito grande (teoria quântica
da gravitação).
Um dos usos de uma
teoria unificada seria nos momentos iniciais do big-bang, a grande explosão
que deu início ao nosso universo. Naquele momento, 10-43s (10 segundos
dos elevados a -43), todas as forças estavam unidas em somente
uma, mas a gravidade já começava a se separar dela. Alguns
instantes depois 10-35s, as forças nuclear forte e eletrofraca
se separaram. Mas esse modelo tinha alguns problemas até que o
físico americano Alan Guth e seus colegas propuseram o chamado
modelo inflacionário do universo, uma expressão rapidíssima
logo após o big-bang, que o levou a multiplicar seu tamanho milhões
de vezes em alguns milissegundos.
Hoje vemos a "mente
de Deus" através do uso da teoria quântica em algumas
áreas. É ela, por exemplo, que governa o comportamento de
transistores e circuitos integrados, componentes essenciais de aparelhos
eletrônicos, e também a base da química e da biologia
modernas.
A única certeza
que temos no mundo das probabilidades descortinado pela teoria quântica
é que "Deus joga os dados", mesmo contra a vontade de
Einstein, embora não saiba ainda por quê. Será que
um dia descobriremos? Segundo Feynman, considerado o maior físico
da segunda metade do século XX, não. Nunca seremos capazes
de entender o porquê, somente o "como" dos atos da natureza.
Hoje as descobertas
na física quântica já não são feitas
mais à velocidade estonteante do início do século
e também não há a concentração de mentes
brilhantes por metro quadrado daquela época trabalhando em somente
uma área. Mas talvez o mais impressionante seja que - supresa!-
o modelo standart somente estará certo se a existência de
uma partícula chamda bóson de Higgs for comprovada. Ou seja,
ainda não temos certeza de que estamos no caminho correto, embora
as evidências indiquem que sim. Se a teoria está correta,
somente o tempo dirá, mas a busca das leis da natureza pode ser
resumida em uma frase de William Shakespeare: "Se você puder
olhar as sementes do tempo e dizer qual grão crescerá e
qual não, avise-me" (Macbeth).
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